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Grupo KES - Curso de Formação de Bombeiro Civil


Trilhando a História

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA ROOSEVELT-RONDON

Expedição Roosevelt-Rondon em 1914 – Rio da Dúvida
O Governo Federal, na gestão do
presidente Rodrigues Alves, fez publicar o edital de concorrência para a
construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no ano de 1905, ocasião em que
se vislumbrou, ainda, a necessidade, de, também, construir uma linha
telegráfica interligando o Rio de Janeiro, então capital da República, a
localidade de Santo Antônio do Rio Madeira, sede inicial das obras da estrada,
de forma a abranger toda a região oeste do país, ainda sub povoada e tida, em
sua maior parte, como “desconhecida”.
Como já sabemos, construção da
linha telegráfica possibilitaria a dinamização das comunicações entre os
extremos territoriais, até então separados pela própria grandeza e ou outro
mecanismo de acesso, possibilitando uma maior integração dos povos, com a
informação de fatos, acontecimentos e interesses econômicos, bem como
viabilizaria a integração de extensa região do país.
Marechal Rondon e Aluízio Pinheiro Ferreira, primeiro Governador do Território do Guaporé.
É de ressaltar-se que esta linha,
quando concluída, se interligou a outra, procedente do Rio de Janeiro. Isso
atendeu, igualmente, o desiderato proposto pelo próprio Rondon, sobre a
necessidade de abrasileirar os brasileiros, uma vez que os interesses
administrativos da jovem república estavam circunscritos apenas aos
frequentadores dos palácios e adjacências, não diferenciando, neste sentido, da
monarquia substituída.
Assim, quando no ano de 1907,
Cândido Mariano da Silva Rondon, oficial do Corpo de Engenharia Militar,
destacado por sua notável experiência na construção e manutenção de linhas
telegráficas no oeste brasileiro, foi nomeado pelo Presidente da República,
Afonso Pena, para chefiar a Comissão das Linhas Telegráficas e Estratégicas do
Mato Grosso ao Amazonas, oportunamente conhecida como Comissão Rondon,
especialmente criada pelo Ministério da Guerra.
Membros da Comissão Rondon em Rondônia – Anta abatida para alimentação do grupo.
A majestosa obra se desdobraria
em duas partes. Uma, inicial, de reconhecimento do território a ser percorrido,
que se deu então em três etapas:
1ª) A “Expedição de 1907”,
partiria de Cuiabá indo até o ponto em que alcançaria rio Juruena. Tarefa que
resultou concluída em 20 de outubro de 1907;
2a) A “Expedição de 1908”,
partiria do rio Juruena, que se deu em 20 de julho de 1908, com o objetivo de
atingir a Serra do Norte e
3a) A “Expedição de 1909”, que
foi dividida em duas: – uma chamada “Turma do Norte”, que teria como
incumbência sair de Santo Antônio do Rio Madeira e subir até as cabeceiras do
rio Jaci-Paraná, onde estacionaria aguardando a chegada da outra, a “Turma do
Sul”, que chefiada pelo próprio Rondon partiria da Serra do Norte em direção às
cabeceiras do aludido rio. Foi, entretanto, no ano de 1909, que a terceira
expedição Rondon partiu do Juruena e varou inteiramente a mesopotâmia que se
acha entre ele e o Madeira.
A cartografia mais atualizada
registrava a área como “desconhecida”[1],
porquanto apenas o caminho das águas e suas adjacências eram conhecidos de
longa data.
Estação Telegráfica Alvaro Vilhena inaugurada em 1911 – Vilhena – RO
Novos cursos d’água foram descobertos,
entretanto, “Nenhum rio suscitou duvidas tão numerosas e duradoiras, como o
correspondente á nascente que descobrimos no dia 16 de julho de 1909 (Expedição
de 1909), no parallelo de 12º39’ Sul, e á qual demos então o nome de cabeceira
do Urú.
“Da coluna exploradora fazíamos
parte eu, os tenentes Lyra e Amarante, e o dr. Miranda Ribeiro, zoologo do
Museu Nacional. A alguns de nós parecia que as águas dessa cabeceira corriam
para o Guaporé; outros opinavam que ellas seriam do Madeira. O problema que assim
surgiu, merecia ser estudado e resolvido, não só pelo interesse que nos
despertava no ponto de vista potamographico, como tambem  pelo que se ligava ao prosseguimento dos
trabalhos relativo ao traçado da linha telegraphica.”³
“… Mas no dia 26, quando já
reunida a minha turma com a do tenente Lyra, voltamos para o Oriente,
deparou-se-nos um riacho da largura de 12 metros, correndo na direção N. N. O.
Novas controvérsias surgiram:
d’onde provinha este riacho? Da nascente a que déramos o nome de Urú ou do
Toloiry-inazá?
Como não fosse possivel, na
ocasião, accordar as duas opiniões, resolvi assignalar aquellas águas com o
nome de “Duvida”, porque para mim, eram ellas as mesmas que nos acabavam de
crear tantos embaraços na discriminação das bacias do Madeira e do Guaporé.” [2]
Todavia, em face do volume de
trabalho a ser executado na edificação da futura linha telegráfica e a escassez
de tempo, recursos e material humano, o levantamento do aludido rio ficou
postergado para oportunidade futura.
Roosevelt e Rondon em 1914 – Expedição em Rondônia
Theodore Roosevelt foi, além de
militar, o 26° presidente dos Estados Unidos, tendo governado entre 1901 e
1909. Assim que deixou a Casa Branca, participou de um safári de quase um ano
na África, ao lado do filho, Kermit. Em, depois de ter perdido as eleições do
ano anterior, resolveu se votar novamente a seu espírito aventureiro. Assim, em
dezembro daquele ano se formaria a Expedição Científica Roosevelt-Rondon – que
ganhou esse nome depois que Cândido Rondon, desde 1907 envolvido com ocupação
da selva amazônica através da implantação de linhas de telégrafo, exigiu que a
expedição tivesse o objetivo científico de navegar e mapear o rio da Dúvida,
descoberto por ele mesmo alguns anos antes na Amazônia. Por isso,
posteriormente o Rio da Dúvida foi rebatizado de Rio Roosevelt logo após a
expedição – que não foi fácil e animada como o safári africano, muito longe
disso. “O mito da benfazeja natureza não pode ser aplicado à crueldade da vida
nos trópicos”, escreveu Roosevelt em seu diário. Ele e seu filho Kermit
contraíram malária, passaram fome e tiveram de enfrentar longos dias sobre o
lombo de burros ou, pior, em canoas que brigavam com as pedras e correntezas do
rio da Dúvida. O ex-presidente americano perdeu 30 quilos em cinco meses de
privações, que resultaram no livro “Nas selvas do Brasil”, escrito por
Roosevelt e dedicado, por ele, a Rondon.
De outra parte, desde o ano de
1908, quando Roosevelt concluíra seu mandado presidencial, Father Zahm, seu
amigo e companheiro de leitura de Dante, sugerira ao mesmo a possibilidade de
promover uma excursão à América do Sul. Entretanto, ele estava ainda empenhado,
a realizar uma viagem ao continente africano, sua vinda à América, como
proposto por Zahm, haveria de aguardar futura ocasião.
Expedição no Rio da Dúvida, hoje nomeado como Rio Roosevelt em Rondônia
Posteriormente, em 1913, ao
aceitar convites das repúblicas Argentina e Brasileira para fazer conferencias,
Theodore Roosevelt, deliberou que, ao final destas percorreria o sertão até o
Amazonas, atendendo a indicação do amigo, com o fito de estudar a fauna da
região tempo em que coletaria exemplares destinados a enriquecer o acervo do
American Museum of Natural History de New York.
O museu preocupado não somente
com o êxito da expedição, uma vez que eventual fracasso poderia comprometer-lhe
a reputação, mas também com a segurança pessoal do ex-presidente dos Estados
Unidos e demais membros da comitiva, cogitava de encontrar alguém que
efetivamente conhecesse a região, para acompanhá-los, oferecendo o suporte
necessário.
Domício da Gama, embaixador
brasileiro nos Estados Unidos, prontificou-se a viabilizar ajuda para o
transporte das cinco toneladas de bagagens e dos pesados barcos que
acompanhavam a comitiva do Rio Paraguai até o local inicial da expedição.
Rondon teria salvo a vida do ex-presidente americano em Rondônia
Além do indispensável auxílio, o
embaixador, ofereceu ao ex-presidente Roosevelt o mais valoroso guia, o então
Coronel Rondon, comandante das Linhas Estratégicas e Telegráficas de Mato
Grosso ao Amazonas, que na ocasião contava com 48 anos de idade, que deveria
escudá-lo no percurso a ser empreendido.
Rondon, assoberbado que estava na
edificação da Linha Telegráfica, encontrava-se na estação Barão de Melgaço, nas
imediações de Pimenta Bueno, quando, a 04 de outubro, recebeu telegramas do
ministro da Guerra, Viação e Exterior sobre a indicação de seu nome para
organizar a comissão que deveria acompanhar o Sr. Roosevelt, na viagem que o
mesmo pretendia encetar pelo interior do país.
Em face das inúmeras providencias
que deveria adotar, diante da nova incumbência, rumou para o rio de Janeiro e a
11 de novembro apresentou-se aos Ministros indicando que aceitaria o encargo de
acompanhar ilustre visitante “… sob a condição de que a expedição não
circunscreveria sua atividade a uma expedição com episódios cinegéticos …”.[3]  Em consequência do que resultou aprovado o
plano de organização da “Expedição Científica Roosevelt-Rondon”, na proposta de
serem realizados estudos geográficos e de história natural.
Propôs, ainda, Rondon, que “De
todos os caminhos a seguir, parecia-me preferível tomar pelos rios Arinos,
Juruena, Papagaio e Dúvida. … Mandei, entretanto, preparar, em nossa seção de
desenho, cartas de cinco itinerários, para que o Itamarati os submetesse à
apreciação de nosso ilustre hóspede – escolheu ele o que maior número de
dificuldades e imprevistos oferecia: o do rio da Dúvida.” [4]
Os desbravadores das Américas – Roosevelt e Rondon.
Assim, a 12 de dezembro de 1913,
Rondon foi aguardar a chegada de Theodore Roosevelt, que vinha transportado
pela canhoneira paraguaia, subindo o rio Paraguai, na Barra do Rio Apa.
Depois do cumprimento das devidas
formalidades, seguiram rio acima, até alcançarem a estação Tapirapuã e dali
demandaram em marcha por mais 650 quilômetros cruzando vastas extensões de
cerrados e matas densas até alcançarem a margem do rio que resultaria
percorrido.
Somente a 27 de fevereiro de 2014
iniciou-se a descida pelo rio da Dúvida, tendo como ponto inicial 12° 1’ da
latitude Sul e 17° 7’ 34’’ de longitude Leste do Rio de Janeiro, nas imediações
da Estação José Bonifácio, em direção ao Norte.
Parte da mesma expedição,
composta pelo Capitão Amílcar, Eusébio Oliveira e Miller marchariam até alcançar
o rio Comemoração de Floriano que, na sua confluência com o Pimenta Bueno,
formam o Ji-Paraná, desceriam este e continuariam pelo Madeira, até Manaus.
Cogita Rondon no sentido de que
“Poderíamos estar daí a uma semana no Gi-Paraná, daí a seis no Madeira ou daí a
três meses, não se sabe onde – Era o rio da Dúvida.” [5]
O rio da Dúvida, que a linha
telegráfica havia transposto quando trafegava de Juruena em direção a Vilhena,
era tido, até então, como afluente da margem direita do rio Comemoração de Floriano
(Barão de Melgaço), até que em 1913 o Tte. Amarante, depois de proceder
meticuloso levantamento no Rio Comemoração de Floriano, concluiu que tal
hipótese era absolutamente infundada.
Logo, a dúvida pendente sobre rio
da Dúvida, se alargava. Com isso, o próprio Rondon, a partir daí, formulou a
hipótese de que o rio da Dúvida só poderia ser a parte superior de um rio
conhecido pela sua foz com o rio Madeira, sob o nome de Aripuanã. O que se
evidenciou, oportunamente, ao final da própria expedição, estar ele acobertado
de razão no tocante a possibilidade anteriormente apresentada.
A importante expedição científica
iria perdurar até o final do mês de abril do ano de 1914. Ao longo de 59 dias
foram percorridos 686.360 metros e os componentes da valorosa expedição estavam
debilitados pelo cansaço e inúmeras doenças.
No dia 26 de abril os
desbravadores encontraram o Tenente Pirineus que, há mais de um mês, os
aguardava com suprimentos e um barco a vapor que os levariam em demanda a
Manaus.
Em 27 de abril, resultou
inaugurada uma placa, salientando, na leitura da Ordem do ia, que “… o rio
cuja parte superior tinha chamado rio da Dúvida, nos mapas da comissão, a
grande parte desconhecida que acabávamos de percorrer, o rio que os
seringueiros chamavam Castanho e o Baixo Aripuanã eram todos um só e grande
rio, com 1.409 quilômetros 174 metros, avançando uniformemente, sem deflexão. E
que, por ordem do Governo Brasileiro, esse rio, o maior afluente do rio
Madeira, com suas nascentes a 13° e sua foz a 5° de latitude Sul, inteiramente
desconhecido dos cartógrafos e até, em grande parte, das próprias tribos
locais, tinha recebido o nome de rio Roosevelt.” [6] 
No amanhecer do dia 30 de abril
chegavam à Manaus, onde Roosevelt recebeu cuidados médicos antes de prosseguir
à Belém, de onde retornaria a sua pátria.
Além da descoberta de um novo rio
em Rondônia, foram recolhidos inúmeros materiais de cunho científico para ambas
nações, e muitos outros foram os resultados da expedição, entre elas: Roosevelt
acabou por descrever a viagem na obra 
“Through the Brazilian Wilderness”, sem contar o reconhecimento da
região sobretudo a fauna, flora e geografia que contribuíram para as
necessárias atualizações cartográficas, sem contar que a expedição SEM CONTAR .
Autores
Aleks Palitot – Historiador
Roque Lorenzon – Especialista em História Regional

[1]
Cartas da Província de Mato Grosso. F. A. Pimenta Bueno. 1880.
[2] MAGALHÃES,
Amilcar A. Botelho – Pelos Sertões do Brasil. Ed. Globo,
Porto Alegre, 1930.  pg. 170.
[3]
VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010.
[4]
VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 373
[5]
VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 377.
[6]
VIVEIROS, Esther. Rondon conta sua vida. Biblioteca do Exército.  Rio de Janeiro, 2010. Pág. 407.

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