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Trilhando a História

Senhores dos Rios em Rondônia.

Ilha da Quarentena – Rio Madeira – Porto Velho – RO
Podeis
imaginar o que é cruzar a Floresta Amazônica através dos seus rios?
Por dias não
se vê nada além da grande floresta. Perfeita e cheia de vida. Rios, estradas de
um caminho só. Vive-se preso ao medo. Medo das
tempestades. Medo de doenças. Medo de animais selvagens. Medo do desconhecido.
Então é
preciso ocultar esse medo bem no fundo da alma, e estudar os mapas, observar a
bússola e os astros, rezar para um bom dia de remada e navegação, e ter
esperança. Pura, simples e frágil esperança. Assim, vive-se a verdadeira
aventura nascida do vasto desconhecido, além da imensidão da Amazônia. Uma nova
vida, uma nova História.
Encontro do Rio Mamoré com o Rio Pakaás em Guajará Mirim – RO
Foram os
exploradores do passado. Bandeirantes, entradas, sertanistas e moções que,
entre os séculos XVII e início do XX, se cobriam de esperança e alavancados de
uma grande coragem, deslizavam suas embarcações pelas águas do sudeste do
Brasil, com destino a uma floresta até então intocável. Havia promessas de
riqueza, glória e fé. Bastava se aventurar e encarar terras antes nunca
exploradas, mas, que despertava no imaginário do homem a possibilidade de ali existir
um El Dorado. Um lugar de oportunidades, de expandir a fé cristã, de ficar rico
da noite para o dia e cravar no solo amazônida seu nome, marcando a história com
atos de heroísmo e superação, tendo como prêmio final, o reconhecimento pelos
seus feitos.
Rio Preto do Candeias – Candeias do Jamari – RO
Na verdade,
nem tudo era perfeito, a não ser a biodiversidade da Amazônia e seu bioma. Havia
doenças, por que não falar dos índios que defendiam suas terras contra os
invasores. O “senhor dos rios” era diariamente levado a pagar um preço muito
alto pelo seu sonho de glória e riqueza. Fato, que levava a selvageria do
explorador, ser tão mais selvagem em seus métodos de conquista, quanto, ao
comportamento do índio na floresta, que pelo conquistador era um selvagem da pior
espécie.
Rio Guaporé – Costa Marques – RO
Em algumas
circunstâncias, escritores da história se reservam algumas vezes, ao fato
histórico em si, a datas, ano, como se isso fosse o teor da história, margeando
apenas os desdobramentos e cotidianos dos “senhores dos rios”, que muito mais
que uma margem, são parte fundamental da leitura que devemos fazer, sobre a
ampliação do território brasileiro frente a Coroa Espanhola ainda no período
colonial. Além das Entradas e Bandeiras, não nos furtemos de relembrar o
sertanista mais conhecido do mundo, o Marechal Rondon, que foi além de sua
missão na Amazônia, deixando marcas positivas de um processo de reconhecimento
mais profundo do mundo amazônico, muita além das margens.
Rio Jaci – Ponte da E.F.M.M. – Jaci Paraná – RO
Do que falam
as margens? O que revelam? Ou ocultam? Fala-se delas ou elas? Dos discursos
historiográficos que tratamos pouco importa trocar as margens de lugar. Não se
trata de inverter ou eleger centros e periferias da história. A questão estaria
menos no local – espaço geográfico – mas, sim, no papel ocupado por algumas
narrativas e seus cenários num determinado discurso historiográfico, que
nacional, homogêneo e hegemônico.
Rio Madeira – Porto Velho – RO
Rondônia é a
cristalizada por culturas que nasceram no berço dos seus rios, e aqui, somos
agraciados pelos rios Madeira, Machado, Jamari, Mamoré e Guaporé, e como
pilares de sustentação, proporcionaram no passado, o ingresso dos sertanistas,
a sobrevivência dos nativos, e no presente a permanência de algumas comunidades
caboclas e tradicionais.
 

Rio Pakaas – Guajará Mirim – RO
Tivemos a
experiência de navegar por 10 rios de Rondônia utilizando um kaiak, embarcação
esta, que no passado foi inventada por esquimós que utilizavam ossos de baleia
e couro de animais, para sua fabricação. A nossa aventura é tentar fazer alusão
aos homens que no passado, superaram de alguma forma, as adversidades de navegar
pelos rios de Rondônia, encarando diariamente as dificuldades naturais de um
ambiente selvagem, que no passado, não se cansava em tentar expurgar os invasores
e conquistadores da floresta e dos rios.     
Rio Preto do Candeias – Candeias do Jamari – RO
E os rios
têm seus senhores e também seus servos. Sociedades indígenas reinventam-se como
no Mamoré, Jamari e Pakaas. Podemos, assim, percorrer os desvãos das
corredeiras do Madeira e da vida de índios que por ali ainda existem. Ritos e
sons dos rios confundem e são confundidos com as experiências de indígenas e
setores envolventes. O Guaporé ganha vida histórica. Como a Amazônia, ele
também é inventado como região, espaço geoecológico. Dele expulsa-se a
história. Mas a recuperamos nos relatos de conquistas e derrotas. O silenciado
e o enfatizado se invertem. Menos mediação da natureza e, sim, expectativas e
percepções. 
Rio das Garças – Porto Velho – RO
É de carne e osso, sangue e coração. São povos como os quilombolas
de Santa Fé e Santo Antônio das Pedras Negras no Guaporé refazendo o contato
colonial, suas identidades e, portanto, a si mesmos. O Outro paulatinamente
reinventa o Nós. E ambos mudam. Desejos da conquista e colonização são escravos
das canoas, e estas dos rios.
Rio Machado – Ji-Paraná – RO
Navegamos
pelos rios Machado, Preto, Candeias, Mamoré, Madeira, Guaporé, Jamari, Rio Jaci
e Garças, não apenas para viver um turismo de aventura, ou menos ainda para de
forma documental, seguir a risca o que os “senhores dos rios” viveram no
passado, e assim, fazer uma alusão próxima da realidade, extraindo daquela
essência, os dissabores de uma viagem quase interminável.  A nossa intenção era sentir, viver e aprender.
Essa tríade foi a nossa grande lição. Precisamos conhecer o passado, tentar
entender e refletir. Viver essa experiência foi algo imensurável. Ao longo dos
rios que navegamos, podíamos imaginar o quanto foi difícil para esses homens “senhores
dos rios”, que chegaram à levar três anos em uma viagem de São Paulo-Amazônia –Belém,
seguindo apenas os cursos dos rios.
Rio Madeira – Porto Velho – RO
Em muitos artigos
e manuais – o que se passou chamar de Amazônia foi verdadeiramente expulso. Uma
expulsão histórica, uma cada vez historiográfica. Inventada como região – unida
e homogeneizada – a Amazônia foi transformada num mundo distante. Da história
distante, mas próxima da natureza. Reintegrar estes mundos não é tão somente um
esforço bem intencionado ou politicamente correto de compreender o regional.
Significa entender a construção de ima(r)gens naquilo que nomeamos Amazônia,
experiências não foram miméticas ou variáveis passivas de mundos dela
distantes, mas extremante ligados, pela história de seus rios.
Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87
Diploma n° 483/2007, Livro 001, Folha 098

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