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Trilhando a História

Divino Espírito Santo, fé do homem da floresta

Foto de Rodrigo Erse
A Festa do Divino tem sua origem em Portugal e foi estabelecida pela
rainha Dª Isabel, casada com o Rei D. Diniz, por volta das primeiras décadas do
século XIV.  Na oportunidade a Rainha
vivenciava no paço real uma briga familiar entre o Rei D. Diniz e seu filho.
Por isso, ela teria feito uma promessa, caso a paz voltasse a reinar na corte e
sua família, ela faria uma réplica da sua coroa e do cetro, os enviaria como
cumprimento de tal promessa ao Divino as regiões pertencentes ao Reino de
Portugal.
Foto de Rodrigo Erse
A Festa do Divino Espírito Santo, em suas diversas manifestações, é uma
das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular. Sua origem
remonta às celebrações realizadas em Portugal a partir do século 14, nas quais
a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes e
distribuição de esmolas aos pobres. Essas celebrações aconteciam 50 dias após a
páscoa comemorando o Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu
sobre os apóstolos de Cristo sob forma de línguas de fogo, segundo conta o Novo
Testamento.
No passado o Imperador do Divino gozava de direitos próprios de um
soberano, libertando presos comuns em certas localidades portuguesas e
brasileiras. Para a organização da festividade havia a Folia do Divino, grupo
de pessoas pedindo e recebendo auxílios de toda a espécie. A folia do Divino,
ilustrada com a pomba simbólica. Essas Folias percorriam grandes regiões,
gastando semanas ou meses inteiros.
Foto de Rodrigo Erse
Em Rondônia, a Festa do Divino tem expressividade no Vale do Guaporé,
onde a população ribeirinha procura manter viva a tradição do festejo. O culto
do Divino Espírito Santo foi introduzido no Guaporé, por volta de 1894, pelo
senhor Manuel Fernandes Coelho, quando de sua mudança de Vila Bela do Mato
Grosso para a localidade de Ilhas das Flores. Naquele ano, o senhor Manoel Fernandes
fez vir, de Vila Bela da Santíssima Trindade, a Coroa de prata e juntamente com
outros adeptos, realizou os festejos do Divino naquela localidade. Todos os
anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquela localidade.
Todos os anos posteriores até o ano de 1932, o Divino foi festejado naquele
local sendo, então, os festejos transferidos para Rolim de Moura.
Atualmente a festa vem se realizando em forma de rodízio, atingindo, a
cada ano, as localidades de Pedras Negras, Limoeiro, Costa Marques,
Pimenteiras, Rolim de Moura, Príncipe da Beira, Santa Fé e Guajará Mirim, além
de localidades em territórios bolivianos com Buena Vista, Guayara Mirin e
Versalhes. A escolha do local é feita durante o encerramento dos festejos,
através de sorteio e recai quatro em quatro anos no mesmo local. O registro
mais antigo sobre a realização dos festejos, data de 1936 e o Estatuto de
criação da Irmandade do Divino Espírito Santo, no Guaporé, data de 1934. No
entanto, antigos moradores e descendentes dos primeiros organizadores dos
festejos, afirmam que havia Ata da festa datada do século 19, em folha avulsa e
que foi extraviada durante o período de sua paralisação. Esse período ninguém
soube precisar. Afirmam alguns que ocorreu após um desentendimento entre os
membros da Irmandade, cujo Presidente Guardião da Coroa, na época,
descontentando-se, entregou-a à Prelazia de Guajará-Mirim.
Foto de Rodrigo Erse
D. Francisco Xavier Rey, Bispo de Guajará-Mirim, foi o revitalizador da
festa, por volta de 1934/36. Os festejos do Divino no Guaporé, têm seu início a
partir do momento em que o Barco do Divino chega à localidade promotora da
Festa no ano anterior e o encarregado da Coroa recebe o Imperador do Divino da
localidade, a Arca contendo a Coroa, a Bandeira, as toalhas do altar e os livros
de Ata. Isso ocorre após a quaresma, mais ou menos no período da Páscoa.
Tradicionalmente, a saída do barco dava-se no sábado de aleluia. Hoje devido ás
inúmeras dificuldades que os peregrinos enfrentam, não há rigidez quanto à data
de saída.
Após o encarregado da Coroa receber a Arca, o Barco do Divino inicia sua
peregrinação ao longo do rio Guaporé e Mamoré, por quarenta dias até o final da
Festa, colhendo óbolos entre ribeirinhos. O final da festa dá-se no dia de
Pentecostes. Anteriormente, a peregrinação era feita em um barco movido a
remos. Hoje, os peregrinos utilizam um pequeno motor emprestado de algum membro
da Irmandade, para movimentar a embarcação até a localidade, quando, então, o
motor é desligado e os remeiros iniciam remadas cadenciadas impulsionando o
barco até o porto.
 

Foto de Rodrigo Erse
Ao aproximar-se de cada povoado, o Barco do Divino anuncia a sua chegada
através de três salvas de ronqueira (artefato confeccionado de madeira com um
cano de ferro por onde é introduzido a pólvora), três buzinadas em chifres de
bois, e, mais próximos, os remeiros entoam cânticos de chegada e fazem a
“meia-lua”, em frente ao porto, que consiste em três voltas circulares com o
barco, antes de aportar. As remadas são cadenciadas e os remeiros elevam um
pouco de água para o alto entre uma remada e outra. O caixeiro, inicia o toque
com o tarol, um tipo de tambor pequeno.
Com a chegada do barco do Divino, acorre grande número de pessoas que
extravasam sua fé, agradecendo as graças recebidas e pegando suas promessas.
Uns, se postam de joelhos percorrendo, dessa maneira, a distância que separa o
porto do local de “morada” da Coroa, outros se introduzem no rio, com água até
a altura dos ombros, segurando velas acesas, rezando ou chorando. 
Foto de Rodrigo Erse
O Divino é saudado com foguetes, alegria, grande satisfação e
demonstração de fé. Quando o barco aporta, o Encarregado da Coroa sai do barco
acompanhado dos “foliões”, do “Mestre dos Foliões” que entoam cânticos
acompanhados de um violão, do Encarregado da Bandeira e os demais tripulantes.
São recebidos pelo Imperador ou Imperatriz do local. A Imperatriz recebe o
Cetro de Prata, e o Imperador a Coroa, das mãos do Encarregado da Coroa. A
partir de então, os fiéis ajoelham-se e beijam a Bandeira, o Cetro e têm a
Coroa posta em suas cabeças por breves instantes. É a benção do Divino, que
todos recebem contritamente. As esmolas são, então colocadas na bandeja de
prata que suporta a Coroa.
O cortejo dirige-se, após, para a igreja da localidade por breve período,
seguindo depois para o local onde se dará a alvorada do Divino ou “Velório”
(acontece durante todos os dias em que a Coroa ficar na povoação, variando
entre dois a quatro dias). Esse costume é herança dos portugueses e ainda é
conservado em seus aspectos tradicionais. Ao cair da noite, a Bandeira e a
Coroa são recolhidas à casa onde o Santo está morando, e onde são rezadas as
novenas e entoados cânticos. O Santo não pode ficar sozinho durante a noite, é
velado pelos fiéis e representantes da tripulação do barco.
Durante o dia, a Coroa e a Bandeira são levadas para a
visitação às casas, coletando óbolos dos moradores. Em cada casa antes de
entrar, os foliões entoam o cântico de chegada. Além da esmola, o dono oferece
comidas e bebidas a todos no cortejo.
Foto de Rodrigo Erse
       A Coroa só se retira da casa
quando o dono autoriza. A dona da casa acompanha a Coroa até a casa vizinha,
levando o Cetro, e a entrega à nova anfitriã da Coroa. Se a dona da casa não
for casada no católico, não poderá levar o Cetro, que nessas circunstâncias,
será entregue a outra pessoa presente em sinal de grande apreço à pessoa
escolhida. É considerado pelos populares, grande honraria receber a Coroa do Divino
e carregar o Cetro da Imperatriz.
Durante os festejos são oferecidas as mais variadas espécies de esmolas,
doações em dinheiro como também doações de bois, patos e carneiros. Os animais
são abatidos para servirem de alimentação à tripulação do barco, e no final da
festa, para alimentarem a todos que estiverem presentes. As doações em dinheiro
são entregues ao pároco para que sejam utilizadas em benefício da Igreja da
localidade promotora da festa.
Foto de Rodrigo Erse
No dia do Divino Espírito Santo, o final da Festa, é feito o carregamento
do Mastro da Bandeira por vários homens e mulheres até em frente à Igreja, onde
é hasteada. A Bandeira é pregada em um quadrado de madeira que por sua vez é
colocado na ponteira de um Mastro. Esse arranjo possibilita que a bandeira seja
movimentada pelo vento, em várias direções. No dia seguinte, a Bandeira estará
apontando na direção onde deverá ocorrer no próximo ano. Depois do hasteamento
da mesma, celebra-se o culto do Divino na Igreja, no caso onde presenciei em
maio de 2012, Igreja Nossa Senhora do Seringueiro em Guajará Mirim.
O sorteio dos personagens da festa como: o Imperador e Imperatriz do
Divino, Alferes da Bandeira, do Capitão do Mastro, dos Mordomos, das
Engomadeiras, da Secretária da Imperatriz e da localidade da Festa, é feito no
dia seguinte. Findo o sorteio, o povo canta,come, bebe, saúda os eleitos e
dança. O Capitão do Mastro os Mordomos, as Engomadeiras e a Secretária da
Imperatriz atuam apenas no dia do final da festa.
A Festa do Divino Espírito Santo, no Vale do Guaporé e Mamoré, sobrevive,
apesar de todas as dificuldades e contratempos, numa mostra de fervor religioso
e apego à mais caras tradições da região. A estrutura para o evento é grande e
se torna dispendiosa, principalmente no que tange a quantidade de pessoas que
atuam diretamente durante os percurso feito ao longo dos rios Guaporé e Mamoré.
A grandiosidade depende sempre da região ou localidade que recebe o Divino. Em
específico na cidade de Guajará-Mirim, envolve combustível para as embarcações
que prestam apoio ao Barco do Divino durante os trajetos visitando as cidades
ribeirinhas. O evento em Guajará-Mirim, segundo estimativa da Paróquia Nossa
Senhora dos Seringueiros, envolve em torno de cinco mil pessoas, entre
organizadores e fiéis. Cidadãos de Guajará que residem em outras cidades, são
levados a retornar a região durante os festejos, movimentando o lugar, além de
moradores de localidades vizinhas como: Iata, Vila Murtinho, Nova Mamoré, Abunã
e Porto Velho.
 A tripulação do barco do Divino é
formada pelos seguintes personagens: Remeiros  são promesseiros ou
foram sorteados no ano anterior; impulsionam o barco com remadas cadenciadas. Usam lenços brancos amarrados na fronte. Foliões ou Alunos do Divino – cantores de 8 a 14 anos, usam lenços
brancos em  volta da cabeça, amarrados
embaixo do maxilar inferior. Mestre – encarregado de orientar os foliões e toca o instrumento
violão. Caixeiro – tocador do tarol, cadencia as remadas dos remeiros. Artilheiro ou Ronqueiro – responsável pelo disparo das salvas de tiros
que anunciam a chegada do Divino na localidade. Encarregado da Coroa – tem a missão de proteger a coroa e entregar ao Imperador de cada localidade onde ocorre festejos do Divino. Comandante Geral – É o piloto do Barco ou Batelão e zela pela
disciplina a bordo. Alferes da Bandeira – Encarregado da Bandeira do Divino. Um Cozinheiro e um Copeiro para auxiliar na alimentação dos membros da tripulação durante o longo percurso nos rios Mamoré e Guaporé. 
Atualmente, a Irmandade do Divino admite aumentar o número dos remeiros
para 14 ou 16, quando a embarcação usada permite, para que possam atender a
grande procura por essa função, pelos promesseiros. Havendo muitos promesseiros
para participarem da viagem no barco, eles são aceitos nas funções de 2°
Caixeiro, 2° Copeiro e 2 ° Cozinheiro. Os encarregados do barco ou batelão, da
Coroa e o Mestre dos Foliões, são escolhidos pelo Imperador da Festa. Os outros
são sorteados ou aceitos por serem promesseiros.
Foto de Rodrigo Erse
Existem muitos símbolos e representações que fazem parte do mundo dos
festejos da festa do Divino Espírito Santo, são símbolos que compõe essa
cultura.  Um deles é a Bandeira do Divino,
é de cor vermelha com a Pomba do Divino bordada de branco no centro.
É observado também a Coroa do Divino, que é de prata, coberta por fitas
coloridas, doadas pelos promesseiros. Para os fiéis, as fitas curam doenças.
Quem quiser possuir uma fita da Coroa, deve trocá-la por outra. Complementam
essas representações o Cetro do Imperador, que é de prata coberto por fitas
coloridas. São parte do ritual os Cânticos, que são cantos de chegada, de saída
e o Hino do Divino, músicas relacionadas a religiosidade. Os componentes que
fazem parte da tripulação do batelão ou embarcação do Divino possuem vestuário
próprio, durante a viagem no barco veste-se normalmente. Apenas os Foliões
amarram o lenço embaixo do queixo e os remeiros, na parte de trás da cabeça.
Essa é a maneira de distinguir uns dos outros. No dia do Espírito Santo
(Pentecostes), quando se dá o final dos festejos, os foliões vestem-se com
roupa à moda dos coroinhas.
A Festa do Divino é organizada, por uma irmandade formada por pessoas
solteiras ou casadas. Não sendo permitido o ingresso de concubinados ou casais
que não são oficialmente casados de acordo com preceitos da Igreja Católica.
Essa irmandade é composta de Irmãos de Corpo e irmãos de Roda. Os Irmão de
Corpo são aqueles membros cuja a vida particular e conduta moral não sofrem
restrição. São irmãos que podem vir a ser Imperador ou Imperatriz da Festa.
Alguns pontos curiosos foram também observados na congregação do evento
estudado. As mulheres não podem fazer parte da tripulação do barco do Divino.
Outra coisa também percebida é que ao folião não se oferecem alimentos frios
para não prejudicarem a voz. Nenhuma embarcação que acompanha o Divino pode
passar à sua frente, pois receberá castigo santo, assim relatado pelos membros
do Divino. Outro fato também levantado, é que mulher divorciada ou como eles se
referem como descasada, “amasiada” ou de vida incerta não pode carregar o
Cetro.  
O Divino em Guajará-Mirim teve alguns períodos de paralisação, segundo os
arquivos da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, no final década de 50, o
evento teve um enfraquecimento, retornando a partir da iniciativa de uma
senhora denominada Zuleide. No decorrer dos anos de 1965 , a senhora Zuleide
quis implantar a Festa em Guajará-Mirim, por ter alcançado uma grande graça
através do Divino Espírito santo. Em 1962 (ou 1963) – a senhora Zuleide e seu
esposo Antônio Mercado trabalhavam como marreteiros, entre os rios Mamoré e
Guaporé. Um certo dia, numa comunidade de moradores ribeirinhos, o casal
atracou o barco, no porto do lugar. Subiram o barranco até as casas, a fim de
oferecerem suas mercadorias. De repente, dona Zuleide teve o intuito de voltar
ao barco. Para seu espanto ao se
aproximar viu o
toldo, que era de palha, pegando fogo. Foi grande seu desespero, pois sua ilha
de dois ou três meses, estava dentro do barco, dormindo. Ela tentou apagar o
fogo. Não conseguindo, gritou pelo marido, que chegou correndo. Vendo que não
conseguiam apagar, clamou pelo Senhor Divino Espírito Santo. Logo em seguida
avistou uma vasilha grande no barco, e junto com seu esposo começaram a jogar
água e puderam contornar a situação. Uma faísca do fogo atingiu a criança deixando
nela o sinal da queimadura. Dona Zuleide prometeu festejar o dia de Pentecostes,
cumprindo a promessa por dois anos, mas, por motivos justos, não pode continuar
com os festejos. Assim deu-se início à festa ao Senhor Divino Espírito Santo,
no bairro do Triângulo. Como não possuíam um lugar fixo para as reuniões, nem
para celebrarem as missas, realizavam as celebrações nas casas das famílias.
Em 1972 foi
entregue para funcionamento a comunidade Guajaramirense, a escola Capitão
Godoy. A Missa começou a ser celebrada neste estabelecimento de ensino. Quando
tinham a presença de um padre disponível, pois a carência era grande, tinham a
Celebração Eucarística.
Em 1973 a Senhora Maria
Angelina Gomes Serrath, vinda do Vale do Guaporé estabelecer-se em
Guajará-Mirim, tomou conhecimento do movimento litúrgico muito carente, e
algumas oportunidades havia grande participação de fiéis, mas, essa
participação não era estável, havendo em alguns momentos esvaziamento das
celebrações.

Aleks Palitot
Historiador reconhecido pelo
MEC pela portaria n° 387/87

Diploma n° 483/2007, Livro
001, Folha 098

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