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Trilhando a História

O Furo do Candeias, desafio do homem na floresta

Casarão do Dr Martins Português datado de 1911 as margens do Madeira 
O “ciclo da borracha” é um evento
na história econômica da Amazônia, que enseja farta matéria de estudo. Da
atividade extrativa da borracha, decorrem também outros fatos históricos como,
a conquista do Acre e a construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Em
virtudes desses fatos, as fronteiras brasileiras foram alargadas, surgindo
novos estados: Acre e Rondônia.
O sentindo de alargar fronteiras,
vai além de um todo, no que tange apenas a ampliação dos limites do Brasil
amazônida. O poder dos seringalistas e os braços dos seringueiros, também
conhecidos como “soldados da borracha”, possibilitaram façanhas conhecidas e
desconhecidas em meio à floresta. Imaginar que nordestinos fugindo da seca do
agreste, e migrando para a Amazônia com um bioma e geografia diferenciada,
puderam abri um canal de um quilometro e meio em Rondônia, praticamente um novo
rio, ligando assim os Rios Candeias e Madeira, isso sim é algo fantástico, vai
além de alargar fronteiras. A vala ou furo do Rio Candeias, é até então pouco
conhecido em história por quem vive em Rondônia.
Furo do Candeias ou Vala do dr. Martins próximo a São Carlos distrito de PVH. 
Percorremos o trecho em questão,
navegando pelo canal, e percebemos a grandeza de tal obra, podendo imaginar as
dificuldades da época para sua construção. Segundo o historiador da
Universidade Federal de Rondônia, Dante Fosenca, estima-se que a obra tenha
sido concluída em meados de 1910 ou 1912, e que o dono da ideia, seria de um
engenheiro português chamado de Dr. Martins. Acredita-se que o mesmo tinha grau
de parentesco com o fundador da cidade de Humaitá no Amazonas, o Comendador
Monteiro, que possuía seringais as margens do Rio Madeira
Pelas de borracha sendo transportadas pelos rios da Amazônia
Segundo relatos, o dr Martins era
proprietário do seringal Aliança em Cadeias do Jamari, e perdia considerável tempo
no transporte de pelas de borracha pelo rio que dava nome a região, pois, por
este se seguia até o encontro do rio Madeira.
Casarão abandonado em antigo Seringal Nova Aliança – uma das mais antigas
 edificações do município de Porto Velho – datado de 1911. 
Para os seringalistas,
evidentemente tempo era dinheiro, por isso, para evitar prejuízos e  agilizar o transporte da borracha, dr Martins
teria encontrado um ponto de proximidade entre os rios, e a partir desse
paralelo teria traçado um caminho, somado ao desafio de desmatar o local em um
trecho de 1,5 km, abrindo uma vala em uma região onde 80% do solo era argiloso. Não
deve ter sido tarefa fácil, até por que não era de muita utilidade a dinamite,
artefato comum nesses tipos de trabalho. Por isso, a maior parte do serviço foi
feito pelos braços dos valorosos seringueiros que com pás, picaretas, inchadas,
serras e machados; abririam a floresta e cavariam um canal por onde seria
possível navegar com regatões e pequenas embarcações. Estas transportariam o
ouro branco, a borracha, diminuindo distancias geográficas, dessa forma o homem
da floresta era convidado diariamente a desafiar as adversidades em Rondônia,
cavando um novo rio, um canal, uma vala.
Casarão abandonado com telhas francesas, piso lateral português, sistema de circulação
de ar, encanamento inglês, papel de parede português e piso de madeira nobre.
Quando visitamos a região, nos
deparamos com antiga sede do seringal que agora seria denominado de Nova
Aliança, a beira do Rio Madeira e próximo ao furo ou vala do senhor Martins. Lá
encontramos um antigo casarão em ruínas datado de 1911. De impressionante
arquitetura no estilo português com telhas francesas datadas de 1910. Ainda é
possível encontrar parte do piso original na varanda da edificação e também o
papel de parede da época na parte interna do casario. Próximo ao local, nos
surpreendemos, com uma escola em ruínas com quatro salas de aula, o que é
difícil, de se imaginar em um seringal. Onde a maioria dos coronéis e
seringalistas, preferiam trabalhadores não instruídos para assim facilitar o
sistema de barracão e aviamento, comum nesse tipo de economia, onde o soldado
da borracha era explorado. Sabe-se que a esposa do dr Martins era professora, e
em meio a sede do seringal sem ter o que fazer no dia-dia, teria insistido ao
marido, a necessidade da construção de uma escola onde ela pudesse lecionar e
se sentir útil.
Cemitério do Seringal próximo ao casarão português
A produção de borracha foi uma
atividade que proporcionou ao governo brasileiro, a oportunidade ocupacional, a
organização política administrativa da região, usando apenas os recursos
naturais que a floresta oferecia. Os rios serviam aos exploradores como
estradas por onde os recursos naturais saíam, transportados para grandes
centros comerciais. O homem nordestino representou para o governo, a força de
trabalho, a mão-de-obra empregada para extrair as riquezas. Após a exaustão da
produção do látex a mão-de-obra foi descartada e os seringueiros foram
esquecidos, abandonados no meio da floresta, e aí permaneceram, viveram e
envelheceram. Mas, sua história sempre será evidenciada, no intuito de lançar
luzes sobre o legado de um povo, que com braços fortes encarou a floresta e
construiu uma linda história.
Aleks Palitot
Historiador
reconhecido pelo MEC pela portaria n° 387/87

Diploma n° 483/2007,
Livro 001, Folha 098

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