Em 106 anos de existência, o Terreiro de Mina Santa Bárbara, única corrente do tambor de mina, em Porto Velho, corre o risco de não comemorar a sua principal festividade por causa de um desmoronamento.
Vítima da ação do tempo, da natureza e também do desinteresse do poder público, o local, que abriga a festa mais antiga da cultura negra em Rondônia, tenta se reerguer para perpetuar as práticas seculares.
Hyago Paiva, um dos membros da Associação Religiosa Recreio de Iemanjá, contou ao G1 a apreensão que paira sobre os membros do Terreiro Santa Bárbara. As obras, que devem terminar até o dia 26 de novembro (data de início do Festejo de Santa Bárbara), são custeadas com ajuda de doações. O evento acontece há 106 anos de forma interrupta.
Quem olha de longe, pode pensar que o maior problema enfrentado pelos praticantes dessa corrente religiosa de matriz africana é o preconceito. No entanto, a comunidade onde o local está parece demonstrar mais tolerância e solidariedade do que o poder público, segundo os frequentadores.
Inserido em um bairro residencial de Porto Velho, o terreiro já faz parte do cotidiano dos moradores.
“Nunca tivemos problema, muito pelo contrário, os moradores ajudam o terreiro. Como não temos poço, os vizinhos colaboram fornecendo água”, conta Hyago.
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Pinturas de Santa Bárbara dividem espaço com obras do terreiro, em Porto Velho. — Foto: Pedro Bentes/G1
O que é o ‘tambor de mina’?
O segmento religioso tambor de mina é uma cultura tradicional de matriz africana, originada no Maranhão. O segmento é único e se diferencia das duas maiores correntes religiosas do tipo, o candomblé e a umbanda. Santa Bárbara é católica sincretizada com o orixá Oyá.
Hyago, que desenvolveu um estudo histórico sobre o local, conta que Rondônia possui cerca de 200 terreiros de umbanda e mais 50 de candomblé. Já o único local de prática de tambor de mina em Porto Velho é o terreiro de Santa Bárbara, fundado em 1916.
O membro conta que antes disso, para driblar o preconceito da época, a fundadora Mãe Esperança fundou uma capela, em 1912, em homenagem à santa, no Bairro Mocambo, região central de Porto Velho.
Com a capela destruída anos depois, o terreiro mudou de local e funciona há 45 anos no bairro Vila Tupi. Atingido por um temporal em 2018, o destelhamento veio se somar as paredes comprometidas. Sem recursos para a derrubada e construção de um novo local, um pedreiro e dois ajudantes, que ainda não receberam o valor integral pelo serviço, se desdobram para a finalização das obras parciais.
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Hyago Paiva, membro da Associação Religiosa Recreio de Iemanjá, contempla as ervas cultivadas e utilizadas durante o festejo — Foto: Pedro Bentes/G1
Por que o Terreiro de Santa Bárbara é importante?
A entrada atual do terreiro pouco se assemelha ao que era antes. Como forma de resistência, apenas o arco do templo ficou de pé. Enquanto peças centenárias, como os tradicionais tambores, dividem espaço com materiais de construção adquiridos através de doações.
Resguardados apenas da ação da chuva e do sol, peças importantes, como objetos religiosos doados pelo primeiro governador do ex-território do Guaporé (hoje Rondônia), Aluízio Ferreira, têm como companhia imagens que compõem o altar, pinturas e registros fotográficos dos primeiros membros da comunidade.
“A festividade desse terreiro foi registrada por inúmeros jornais no início do século XX em Porto Velho. Ele também foi responsável por dar origem a diversos bairros como Mocambo e Santa Bárbara (região central). A mãe de santo fundadora, Mãe Esperança, deu nome a maternidade municipal da cidade”, conta Hyago, que desenvolveu pesquisa sobre o local.
Sobre a Mãe Esperança, o historiador Marco Teixeira, entrevistado pelo G1, explica que essa personagem realizou ações importantes para o estabelecimento da comunidade negra em Porto Velho.
“Essa senhora salvou muitas mulheres negras que chegaram a Porto Velho, dando emprego, nome e residência a elas. Parteira, curandeira, médica, ela (Mãe Esperança) também fundou o bairro Mocambo”, explica o historiador.
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Crucifixo doado pelo primeiro governador do ex-território do Guaporé, hoje Rondônia, ao Terreiro de Santa Bárbara, em Porto Velho. — Foto: Pedro Bentes/G1
O festejo de Santa Bárbara inicia no dia 26 de novembro e segue até o dia 20 de janeiro. Durante os mais cinquenta dias de evento, membros participam das atividades que acontecem dentro do terreiro. Além disso, também há procissão até uma paróquia no mesmo bairro e, por fim, uma reunião, onde fiéis tocam tambor.
“O Terreiro de Mina Santa Bárbara é um patrimônio histórico importante. O seu principal festejo representa a primeira manifestação da cultura afro religiosa em Rondônia. Ele traz tradições negras das origens da fundação de Porto Velho, além de representar a primeira forma de organização social da comunidade negra no estado”, explica Marco Teixeira.
Como forma de manter a herança deixada pelos negros pioneiros, Hyago Paiva tenta reviver o lado social do Terreiro de Santa Bárbara com a criação de um estatuto para a fundar uma associação. Essa medida, segundo ele, seria um primeiro passo para colocar o terreiro no radar de órgãos culturais do município e do Estado.
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Arco usado nas cerimônias do Terreiro de Mina Santa Bárbara resistiu a danos. — Foto: Pedro Bentes/G1
Ainda de acordo com o historiador Marco Teixeira, a festa de Santa Bárbara foi a maior festa de Porto Velho durante muitas décadas. O primeiro ato da festa é levantar o mastro, que precisa ser feito com o terreiro em pé.
Enquanto tentam se adequar ao esquema burocrático, membros e apoiadores contam com as doações de diversas pessoas que se identifiquem, ou não, com a crença seguida por eles. Doações que podem manter em pé uma das festividades religiosas mais antigas do estado.