Rondônia vive mais um daqueles momentos curiosos e reveladores da política. O presidente do Tribunal de Justiça, Alexandre Miguel, assume o comando do Estado não por uma crise institucional, nem por um fato extraordinário, mas por algo muito mais comum: cálculo político.
Com o governador Marcos Rocha fora do país, o natural seria a linha sucessória funcionar sem sobressaltos. Mas não foi o que aconteceu. O vice-governador, Sérgio Gonçalves, e o presidente da Assembleia Legislativa, Alex Redano, simplesmente ficaram fora do jogo. E não por impossibilidade física, mas por estratégia eleitoral.
Assumir o governo, mesmo que por poucos dias, poderia custar caro lá na frente. No caso de Redano, o risco direto de comprometer a reeleição. No de Sérgio Gonçalves, a preocupação é outra: o projeto de disputar uma vaga na Câmara Federal. Em resumo, ninguém quis correr risco.
E aí entra o Judiciário.
A Constituição prevê esse tipo de situação, é verdade. Mas o que se vê, na prática, é uma inversão silenciosa de prioridades. A política, mais uma vez, se sobrepõe ao institucional. Não se trata de questionar a legalidade ela está assegurada. O ponto é outro: o simbolismo.
Quando os agentes políticos evitam assumir responsabilidades por medo de impacto eleitoral, o recado é claro. O mandato, que deveria ser exercício de dever público, passa a ser tratado como peça de um jogo maior, onde o objetivo principal é o próximo pleito.
Alexandre Miguel assume com a serenidade de quem não está em campanha. E talvez seja justamente isso que torna o episódio ainda mais emblemático. Enquanto os políticos calculam, o Judiciário ocupa o espaço.
No fim das contas, Rondônia segue funcionando. Mas o episódio deixa uma pergunta incômoda no ar: quem está, de fato, disposto a assumir o ônus do poder quando ele aparece?
Porque querer o bônus, todo mundo quer.























