Para entender esse contraste, é preciso compreender que o prefeito Léo herdou décadas de abandono estrutural — e respondeu com uma das mais robustas carteiras de obras da história recente de Porto Velho, quase R$ 200 milhões em licitações apenas no primeiro semestre de 2026, numa aposta de que a cidade que a população conhece hoje não precisa ser a cidade que ela vai viver amanhã
Porto Velho, RO – Porto Velho é a pior capital do Brasil para se viver em 2026. Esse é o dado. O Índice de Progresso Social atribuiu à cidade 58,59 pontos, abaixo da média nacional de 63,40, colocando a capital rondoniense na última posição entre as 26 capitais e o Distrito Federal, numa metodologia que considerou 57 indicadores distribuídos em três dimensões: necessidades humanas básicas, fundamentos para o bem-estar e oportunidades.
A cidade não aparece sequer entre os 15 municípios mais bem avaliados do próprio estado de Rondônia, onde Rolim de Moura lidera com 62,85 pontos. No ranking nacional de capitais, Porto Velho ficou atrás de Macapá, Maceió, Salvador e Recife. No ranking dos estados, Rondônia ocupa o 23º lugar, com média de 58,60 pontos, à frente apenas de Amapá, Acre, Maranhão e Pará.
Esse é o dado. Mas o dado, isolado de seu contexto institucional e histórico, conta apenas parte da história. Indicadores urbanos e sociais não se deterioram nem se recuperam em um único mandato. São, quase sempre, o resultado acumulado de longos ciclos de investimento insuficiente, baixa capacidade de execução, ausência de planejamento e passivos históricos que atravessam diferentes administrações.
A questão central que qualquer análise honesta precisa responder antes de apontar responsabilidades é a seguinte: quem, no estado de Rondônia, é responsável pelo saneamento básico? A resposta está na lei. Existe legislação aprovada pela Assembleia Legislativa de Rondônia criando macro-regiões e vinculando a modelagem institucional do saneamento ao Governo do Estado. E há mais: tramita no âmbito estadual uma proposta para licitar o saneamento em Rondônia, dentro de um processo que envolve o futuro da Caerd, empresa mista que hoje opera o serviço, e a possibilidade de terceirização. Isso não elimina os impactos políticos sobre a Prefeitura — afinal, é o cidadão quem sofre diariamente as consequências do problema —, mas ajuda a compreender que parte substancial do passivo estrutural que derruba Porto Velho no IPS ultrapassa a esfera puramente municipal.
Os números do saneamento são, de fato, devastadores. Apenas 9,89% da população tem acesso ao tratamento de esgoto. Mais da metade dos moradores vive sem água tratada. Porto Velho ocupa o centésimo lugar em acesso à água potável, a 96ª posição em acesso à coleta de esgoto, a 98ª em volume de esgoto tratado sobre a água consumida e a 96ª em investimento por habitante. Uma capital de 460.434 habitantes pelo Censo de 2022, estimada em 517.709 moradores em 2025, que cresceu durante décadas sem que os investimentos estruturais acompanhassem o aumento populacional. Há dez anos a cidade permanece na última posição do ranking de saneamento entre as cem maiores cidades do país, segundo o Instituto Trata Brasil.
É exatamente nesse cenário que a aprovação de 94,5% de Léo Moraes, registrada pelo Instituto Veritá, precisa ser analisada com mais profundidade. A pesquisa ouviu mais de 100 mil pessoas nas capitais brasileiras e analisou 51 serviços municipais, além da avaliação direta do prefeito, totalizando 52 indicadores organizados a partir de 91 temas distribuídos em 18 áreas dos serviços públicos. O contraste entre forte aprovação popular e indicadores urbanos negativos não deixa de chamar atenção. A própria pesquisa do Veritá aponta saneamento e meio ambiente como a pior área avaliada do município, tendo a coleta e tratamento de esgoto como o pior serviço específico.
É possível interpretar esse índice de aprovação sob uma perspectiva mais ampla: não necessariamente como expressão de satisfação plena diante da realidade objetiva da cidade, mas como um depósito coletivo de expectativa sobre o futuro. Em uma capital que ocupa a última posição nacional em qualidade de vida, a elevada aprovação pode sinalizar algo politicamente relevante: parte significativa da população parece apostar que a gestão atual será capaz de enfrentar problemas que atravessaram diferentes governos sem solução estrutural.
Essa expectativa encontra um elemento concreto de sustentação na forma como a atual administração passou a apresentar seus projetos. Em vez de formulações genéricas ou promessas abstratas, o material da Prefeitura detalha o que pretende executar, quanto cada intervenção custará, quais serão as fontes de recurso, em que estágio burocrático se encontram os projetos e qual a previsão estimada de entrega. Não se trata ainda de resultado material consolidado — isso dependerá da execução —, mas de uma tentativa objetiva de organizar um horizonte administrativo verificável, algo particularmente relevante em uma cidade acostumada a conviver com déficits históricos e baixa previsibilidade de investimentos estruturantes.
A resposta da gestão municipal ao que está dentro de sua competência veio formalizada em uma das mais robustas carteiras de obras da história recente da capital. No primeiro semestre de 2026, a Prefeitura de Porto Velho lançou 12 obras em processo de licitação, somando R$ 187.893.812,21. Em março, seis obras totalizaram R$ 55.921.666,10, entre elas a Policlínica PVH pelo programa PAC 2025, com R$ 22.364.623,38, a Casa da Mulher Brasileira vinculada ao Ministério das Mulheres, com R$ 17.387.078,27, e o Novo Mercado Km 1, com R$ 9.599.059,89 e licitação já concluída. Em abril, mais cinco obras somaram R$ 25.055.865,79, incluindo a Escola de 20 salas no Bairro Novo, com R$ 14.140.000,00, e a Pavimentação do Bairro Lagoa I, com R$ 6.347.155,00. Em maio, a carteira suspensiva concentrou R$ 106.916.280,32, divididos entre quatro creches FNDE Tipo 2 no modelo Proinfância, com capacidade para atender até 188 crianças cada em dois turnos ou 94 em período integral, distribuídas pelos bairros Três Maria, Nova Califórnia, Extrema e Vista Alegre do Abunã, e a obra mais estruturalmente simbólica do conjunto: a macrodrenagem urbana de R$ 90 milhões.
A macrodrenagem merece atenção especial precisamente porque representa uma das respostas mais diretas que a gestão municipal pode oferecer dentro de suas competências legais à crise de infraestrutura hídrica da cidade. Descrita no plano da administração como um conjunto de obras estruturais e não estruturais para manejo sustentável das águas pluviais, mitigação de enchentes e inundações, promoção de segurança urbana e sustentabilidade ambiental, a intervenção será financiada pelo Orçamento Geral da União, por meio do Novo PAC, dentro do programa de Drenagem e Contenção de Encostas. Não resolve o saneamento, cuja modelagem institucional está vinculada ao Estado, mas enfrenta uma das expressões mais visíveis do abandono infraestrutural acumulado: os alagamentos recorrentes, a drenagem insuficiente e a vulnerabilidade urbana ampliada a cada período de chuvas.
Além das licitações do primeiro semestre, a carteira da gestão inclui obras em execução e projetos em desenvolvimento que compõem um mapa de intervenção urbana de grande escala. Estão em execução o Instituto de Longa Permanência do Idoso, com R$ 7.416.501,00 via convênio federal, a reforma da Maternidade Mãe Esperança com previsão de conclusão em julho de 2026, a UPA Leste financiada por emenda do próprio Léo Moraes, a reforma da UBS Pedacinho de Chão com R$ 2.054.623,79, a reforma da Policlínica Rafael Vaz e Silva e a Pavimentação do Parque Amazônia, com R$ 9.428.787,00 e execução em 24,88%. Em fase preparatória ou de elaboração estão a UPA Dra. Ana Adelaide Adulto e Infantil, classificada como Porte III e orçada em R$ 31,2 milhões, com entrega prevista para abril de 2028, o Centro de Convenções com área construída de 7.300,05 m² e capacidade para 5 mil pessoas, o Memorial da Candelária, o Mercado do Pescado e Entorno, o viaduto na Avenida Imigrantes com Avenida Rio Madeira, a Farmácia Básica Municipal Zona Sul com R$ 3,5 milhões e projeto concluído para captação de recursos, quatro UBS Tipo 2 pelo PAC 2025 com licitação prevista para julho de 2026, além de praças, quadras de grama sintética, escolas em tempo integral, pavimentações de estradas vicinais e equipamentos distribuídos por diferentes regiões da cidade e dos distritos.
O ciclo de execução apresentado pela Secretaria Municipal de Contratos, Convênios e Licitações documenta com precisão a complexidade do que está sendo posto em marcha. São 435 dias apenas para percorrer as oito etapas que vão do projeto arquitetônico até a assinatura do contrato, distribuídas entre arquitetura com 60 dias, regularização junto à SEMUR com 20 dias, aprovações de trânsito na SEMTRAN com 20 dias, licença ambiental pela SEMA com 20 dias, engenharia completa com todos os projetos complementares em 150 dias, processo administrativo com 45 dias e licitação formal com homologação e adjudicação em 120 dias, antes mesmo da emissão de qualquer ordem de serviço. A execução contratual, que pode durar 12 ou 18 meses conforme o objeto, vem depois. É um ciclo longo, burocrático e exigente, apresentado pela própria gestão sem esconder os prazos técnicos envolvidos.
Em uma cidade marcada por décadas de precariedade estrutural, é no mínimo razoável que surja alguma esperança quando um gestor público apresenta, de forma clara, o que pretende fazer, como pretende fazer, quanto pretende investir e em que prazo espera entregar. Esperança, contudo, não é sinônimo de cheque em branco. O passivo urbano de Porto Velho é profundo demais para admitir triunfalismo precoce.
Uma cidade que passou dez anos na lanterna do saneamento, que aparece na última posição nacional em um índice voltado à qualidade de vida e que cresceu para mais de 517 mil habitantes sem receber infraestrutura proporcional não sairá do fundo do ranking por força de discurso, popularidade ou apresentação de projetos. Uma deterioração dessa magnitude dificilmente pode ser atribuída a uma gestão iniciada em 2025. O desafio colocado à administração Léo Moraes é outro: transformar licitação em obra concluída, cronograma em resultado concreto e expectativa popular em melhora objetiva dos indicadores que hoje colocam Porto Velho na última posição entre as capitais brasileiras.






















